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Favelas do Rio Provam que Energia Solar Também É Possível nas Periferias


Esta vídeoreportagem faz parte de uma série sobre justiça e eficiência energética nas favelas do Rio. Ela também faz parte de uma série gerada por uma parceria, com o Digital Brazil Project do Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental nas favelas cariocas.


“Dizem que energia solar é só para rico. É mentira, a gente prova isso aqui. Pequenos estabelecimentos, instituições, cooperativas. Babilônia e Chapéu Mangueira mostraram para o mundo que é possível energia solar nas áreas pobres”, defende Valdinei Medina. Cria do Chapéu Mangueira, ele vive hoje na comunidade vizinha, Babilônia, ambas no Leme, Zona Sul. Dinei, como é mais conhecido, é uma das lideranças locais atuantes na RevoluSolar, uma associação sem fins lucrativos que trabalha com instalação de sistemas de energia solar, cursos de capacitação profissional e educação ambiental nas duas favelas.

As primeiras instalações foram realizadas em dois empreendimentos locais, o Babilônia Rio Hostel e a pousada Estrelas da Babilônia. Cinco anos após a entrega dos projetos-piloto, os moradores se preparam para ver funcionar a primeira cooperativa de energia solar em uma favela no Brasil. A eletricidade gerada pela usina, montada no telhado da Associação de Moradores, irá beneficiar, aproximadamente, 35 famílias da Babilônia e do Chapéu Mangueira.


A montagem das placas solares foi finalizada em fevereiro deste ano e a expectativa é que a cooperativa comece a operar no mês de abril. As famílias beneficiadas terão uma redução em cerca de 30% nas contas de luz e estarão consumindo uma energia limpa. “A gente fez diversas reuniões com a associação de moradores, divulgamos quem queria fazer parte e precisava estar regularizado com a operadora de energia. Quase 120 pessoas se inscreveram e, a partir desse grupo, nós fomos analisando. Hoje a gente viu que há um interesse grande, isso também porque a Light cobra por estimativa aqui no morro. Além de ser caro, o serviço é muito ruim”, explica Dinei.


Parte do valor economizado nas contas de luz será repassado, mensalmente, à cooperativa, para que os trabalhadores locais envolvidos na instalação possam ser remunerados. Segundo Dinei, a expectativa é que esse modelo permita ampliar o alcance do projeto na comunidade e, futuramente, possa ser levado para outras favelas e até ser replicado em instituições públicas. “A gente acredita que a solução para a cidade, para o país, vai partir das áreas pobres, das periferias”, ressalta Dinei.


Em frente à associação de moradores, onde funcionará a cooperativa, está a Escolinha Tia Percília, uma instituição comunitária fundada há três décadas. O nome é uma homenagem à fundadora do espaço, uma liderança local envolvida e preocupada em ampliar o acesso à educação e à cultura entre as crianças e jovens da Babilônia e do Chapéu Mangueira. Quem cuida do espaço hoje é um dos filhos de Dona Percília da Silva, Carlos Antônio Pereira, mais conhecido como Palô. A escola foi a primeira instituição comunitária da Babilônia a receber a instalação dos painéis solares, em dezembro de 2018.


A Escolinha Tia Percília atende crianças das duas comunidades de forma totalmente gratuita e mantém suas atividades por meio de doações. A conta de energia era um dos principais custos e pesava no orçamento apertado da instituição. “Nós temos sete ou oito cômodos, temos um consumo de energia alto porque você precisa usar ventiladores, ar condicionado, geladeiras, freezer, os computadores da sala de informática. Isso era uma grande preocupação porque estando ativo ou não a conta chega e alguém tem que pagar”, avalia Palô.


Antes da instalação do sistema fotovoltaico—tecnologia que converte a energia do sol em energia elétrica—o gasto com eletricidade variava entre R$700 a R$1.000 por mês. “Era pesadíssimo, impactava muito o nosso orçamento e os nossos parceiros que contribuíam, às vezes, não entendiam como havia uma conta tão alta numa comunidade. Como eu vou pedir doação para alguém e falar que eu gasto R$1000 por mês? Essa conta é pesada, inexplicável, e é difícil você fazer as pessoas entenderem”, explica ele.


Após a implantação, as contas tiveram uma redução média de 85%, variando entre R$100 e R$150 por mês. A economia, segundo Palô, tem sido maior do que se esperava. Além disso, nos meses em que o sistema gera mais energia do que a escola consome, a eletricidade retorna para a rede da Light e é transformada em créditos, que podem ser utilizados para abater o valor das contas.


O impacto sentido no orçamento não é o único. A instalação dos painéis nos espaços comuns da comunidade, como a Escolinha e a Associação de Moradores, tem aproximado a energia limpa do cotidiano dos moradores. “A gente até vê nos noticiários, mas quando você vê na prática, você percebe que é possível”, observa Palô. Apesar de ser cada vez mais comum avistar do alto do morro os “telhados azuis”, ele conta que os painéis solares ainda despertam curiosidade nas crianças e, também, entre os adultos.


Trabalhar com a educação ambiental na comunidade é uma parte importante do projeto, como explica Dinei: “É distante ainda, a gente tem muito debate e muito desafio. Estamos criando um cineclube, criando cartilha, tem o pessoal da educação infantil, tem uma galera trabalhando demais para que a energia limpa, a energia solar seja algo mais popular, seja algo que o morador entenda”. Dentro da Escolinha, o meio ambiente é um tema trabalhado em diversas atividades. As crianças aprendem desde cedo o que é a energia solar e veem, na prática, como funciona a conversão da energia do sol em eletricidade.


Um trabalho parecido também acontece na Creche Comunitária Mundo Infantil, projeto-piloto de energia solar de outra organização social: a Insolar. O espaço comunitário fundado há 38 anos por mulheres do Santa Marta, Zona Sul, teve a implantação do sistema em 2016. A creche foi a porta de entrada do projeto, que nos últimos cinco anos já instalou mais de 200 painéis solares no local, a maior parte deles em espaços comuns utilizados pelos moradores, como creches, a Clínica da Família, a Associação de Moradores e as estações do plano inclinado.


Diretora da Creche Comunitária Mundo Infantil há 27 anos, Adriana da Silva lembra que, na época que recebeu a proposta de instalação das placas, não sabia muito sobre energia solar. A expectativa era reduzir o custo da conta de luz e poder usar o valor economizado em melhorias no espaço e até na alimentação das crianças. Após a implantação do sistema, a conta sofreu uma redução significativa, como prometido. Mas os impactos notados por Adriana vão além dos benefícios financeiros. “Isso é muito valioso porque a gente aprende muita coisa, que até então a gente só via na televisão. Quando conhece pessoalmente, a gente vê como as coisas funcionam, a gente vê como, realmente, a conta baixou”, avalia.


Como a creche foi o primeiro local a ter painéis solares no Santa Marta, Adriana lembra que muitas pessoas perguntavam sobre o sistema. Com o passar do tempo, outras instituições foram incluídas no projeto e a presença das placas nos telhados se tornou comum no morro. Além disso, as oficinas de educação ambiental e os cursos profissionalizantes ajudaram a popularizar a energia limpa. “Dentro da comunidade tinha muito curioso, hoje em dia não perguntam mais tanto como perguntavam. Quando você sobe no bondinho, você vê as placas em vários lugares. Foi mais novidade nos primeiros anos, hoje já é mais familiar”, observa Adriana.


Fazer circular as informações sobre a energia solar é parte da missão de Verônica Moura, cria do Santa Marta e embaixadora da Insolar. As primeiras pesquisas feitas no local, na fase de implantação do projeto, foram realizadas por pessoas da própria comunidade, capacitadas em um curso coordenado por Verônica. Hoje, ao frequentar as instituições que possuem sistemas fotovoltaicos, ela diz sentir um grande orgulho do pioneirismo da favela onde nasceu.


O novo cenário que se construiu nos últimos anos está presente no dia a dia das novas gerações do Santa Marta, que aprendem desde pequenos que a favela é um espaço de potência. “Ver nossas crianças conhecendo, vendo no telhado de suas instituições a energia solar… Eles perguntam, eles querem saber e essa comunicação é muito importante. Eles pequenininhos já sabem como nós podemos ter sim essa tecnologia na nossa comunidade”, argumenta Verônica, mãe de um menino de 12 anos e de uma bebê de 8 meses.

A implantação do sistema de energia solar na Creche Comunitária Mundo Infantil, assim como na Escolinha Tia Percília, na Babilônia, foi possível por conta da articulação de vários parceiros que apoiaram os projetos com recursos e conhecimento técnico. A Insolar e a Revolusolar atuam como pontes, democratizando e facilitando o acesso à energia solar nas favelas. As instituições atuam também na qualificação profissional de moradores, que passam a atuar na implantação de novos sistemas e na manutenção daqueles já instalados no território.


Empregabilidade e Renda: As Oportunidades que Vêm da Energia Limpa


Leonardo Luis conheceu a energia solar entre 2015 e 2016. Na época, ele estava desempregado e trabalhava vendendo produtos de limpeza em uma das entradas do Santa Marta. Ele lembra que a grande preocupação era garantir o sustento da filha. Em um dia de trabalho comum, recebeu o convite do cofundador da Insolar, Henrique Drumond, para participar de um curso de formação, onde aprenderia sobre circuito elétrico e sistema fotovoltaico, além de normas de segurança.


No último módulo do curso, quando começou a aprender sobre o sistema de energia solar, o Santa Marta começava a receber os primeiros projetos. Desde a conclusão do curso, em 2017, a energia solar mudou o cenário da comunidade e também a vida de Leonardo, hoje um empreendedor que lidera uma equipe de quatro pessoas. Todos são moradores do Santa Marta e ex-alunos da formação profissional da Insolar. “Hoje eu sou bem conhecido no mercado, uma empresa me indica para a outra”, conta Leonardo, que realizou os primeiros serviços no próprio território.


A qualificação profissional modificou a vida de Leonardo e também do seu círculo mais próximo de familiares e amigos. “A energia solar mudou tudo na minha vida. Fora as oportunidades que eu consigo gerar ao ensinar sobre energia solar para outros amigos da e até levar, quando é possível, para trabalhar comigo”, explica o empreendedor. “Eu, que nunca tinha tido uma profissão, de cara poder ter contato com esse tipo de tecnologia foi muito impactante na minha vida e na vida da minha família. Hoje meus irmãos todos falam que querem aprender também”, diz.


Novas Soluções, Antigos Problemas: O Desafio da Energia Solar nas Favelas


O Hostel Estrelas da Babilônia, projeto-piloto de energia solar na favela da Babilônia, tem como missão principal ser um estabelecimento sustentável. Além da instalação dos painéis solares em 2016, o espaço tem teto verde e trabalha com reciclagem e compostagem. Reduzir o impacto de seu funcionamento na natureza é uma ideia presente desde o começo. À frente desse pequeno empreendimento está a colombiana Bibiana Gonçalves, que vive há oito anos na Babilônia.


“A energia solar para o nosso pequeno empreendimento foi uma coisa incrível, porque parecia que tudo o que trabalhávamos, o pouco lucro que se tem em um negócio na favela, ia para pagar energia”, conta Bibiana. Logo no primeiro mês de funcionamento dos painéis solares, as contas que variavam entre R$950 a R$1.300 caíram para cerca de R$300 por mês. Em pouco tempo, o valor economizado foi usado para pagar o empréstimo feito para a compra das placas.


“O maior desafio é a empresa de energia, a Light”, explica Bibiana, que reclama da diferença entre o serviço fornecido no asfalto e na favela. Os problemas com a companhia começaram na época da instalação, quando o sistema solar do hostel foi conectado à rede da Light. “Você não tem ideia de quantas ligações eu tive que fazer para que a empresa de energia viesse fazer a parte dela”, lembra.


Segundo Bibiana, há quase dois anos os problemas com a companhia se tornaram frequentes e pioraram. A caixa de energia onde o sistema solar do hostel está conectado passou a apresentar defeito. Diversos reparos foram feitos pela operadora, até que em novembro do ano passado, o transformador parou de vez, deixando o hostel e todas as residências da rua sem energia. Sem a conexão dos painéis à rede da Light, a energia tem sido perdida. “Os ‘jeitinhos’ dados pelos funcionários já não funcionam mais, então hoje toda a energia da minha casa está conectada diretamente ao cabo fornecedor, não passa pelo relógio. Eu não estou contabilizando a minha energia, não estou gerando energia e todo o sol incrível que chega aos painéis está se perdendo, nem sequer a Light está recebendo essa energia”, explica Bibiana. A empreendedora teve o nome negativado pela companhia, após não conseguir pagar as contas de energia que, sem os painéis solares, voltaram a ultrapassar R$1.000 mensais.


De acordo com Eduardo Avila, diretor executivo da Revolusolar, os sistemas mais comuns de energia solar no Brasil são conectados à rede da operadora de energia, funcionando de forma integrada. Quando os painéis solares são instalados, uma parte dos equipamentos da rede são trocados, como por exemplo o medidor. Em uma rede convencional, os relógios são unidirecionais e contabilizam apenas a energia que é consumida. Já na conexão das instalações fotovoltaicas com o sistema da operadora de energia, o medidor é trocado por um relógio bidirecional, que contabiliza não apenas o consumo, como também, a energia produzida pela própria residência. Quando o sistema gera energia excedente, essa eletricidade é injetada na rede elétrica e a pessoa ganha créditos que, posteriormente, podem ser abatidos na conta de luz.


Envolvida em vários projetos ecológicos, Bibiana diz acreditar no potencial da energia solar, mas afirma ser necessário uma mudança de postura de autoridades e empresas em relação às favelas: de quê adianta você fazer um investimento, você sonhar, você trabalhar com tecnologia, quando as instituições públicas e privadas, com as quais a gente precisa trabalhar em parceria, seguem subestimando a favela, seguem olhando a favela como algo inferior?


A operadora de energia no Rio, a Light, foi procurada para comentar sobre a implantação dos projetos de energia solar nas favelas e também sobre o problema no atendimento registrado na Ladeira Ari Barroso Mirante, onde fica o Hostel Estrelas da Babilônia, mas a empresa não respondeu ao contato.


Sobre a autora: Jaqueline Suarez é jornalista e estudante de mestrado na UFF. É também comunicadora popular e vídeo-documentarista independente. Vive na comunidade do Fallet, em Santa Teresa, Zona Central do Rio.


Sobre o artista: Gilberto FAO é estudante de artes visuais, artista e grafiteiro. Gilberto também é articulador cultural e organizador independente de eventos. Vive em São Paulo, no bairro Chácara Santana na região do Capão Redondo, na Zona Sul da capital paulista.


Esta matéria faz parte de uma série sobre justiça e eficiência energética nas favelas do Rio. Para contribuir com esta pauta, clique aqui.

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